
Prateleiras aliviadas. Gavetas ocas. Bolsos sem chaves. As coisas foram se despertencendo de mim. Aos ombros, restou somente o essencial.
Despacho meu breve patrimônio (do imaterial continuo bem equipado). E vou abrindo portões de embarque com pedaços de papel. Devidamente apoltronado, com o 'groove' do Fela Kuti acolchoando minhas orelhas, assito ao painel que televisiona minha rota. Dentro do navio atmosférico espero 8 horas sobre-atlânticas. Depois, apresso meu relógio em 5 voltas para sincronizar as pontualidades: às 11 da manhã do dia 12 de maio, aporto na Cidade do Cabo.
O calor dos abraços de despedida, ainda frescos no meu colo, não é agasalho suficiente. Um prefácio do inverno impõe cobertura extra às peles multicoloridas que habitam e visitam a municipalidade mãe da África do Sul.
Testemunha daquele encontro entre holandeses e Khoi-Khois em 1652, a Table Mountain também ostenta trajes polpudos: um denso nevoeiro envolve o maciço de pedra que protagoniza boa parte dos cartões-postais da região. Para alguns, a cortina úmida é vento sudeste condensado. Para outros, é a fumaça do cachimbo de Jan Van Hunks, um fumante inveterado que, desde os tempos da colônia, sobe a este elevado para dar uns tragos com o capeta.
Mito ou meteorologia, o fato é que a montanha veste-se de inacessível. Terei que me contentar com os passeios horizontais.
- Keeepp Taaawwnn!!
Da janela da van, o cobrador berra meu destino. Como resposta, ergo o braço oferecendo-me passageiro. Do subúrbio onde estou hospedado até o centro, vamos de esquina em esquina acolhendo pedestres convertidos (no grito) em clientes. Entrego 5 Rands (cerca de R$ 1,25) ao garganta. E quinze minutos depois, o coletivo me cospe no ponto final.
Vestuário para o frio. Pacotes de artificialidades comestíveis. Bugigangas eletrônicas. São as ofertas ambulantes. Há até um salão de beleza, improvisado entre paredes de lona, prometendo tranças àquelas querendo se enfeitar. Mas conforme afundo os passos nos quarteirões históricos, a vitalidade do comércio em torno da rodoviária vai arrefecendo. Ao sopé de prédios seculares, calçadas limpas são passarela para o turismo, que desfila despreocupado sob a vigilância adornada com coletes verdes.
Assim também no Porto. Letreiros ofuscantes de restaurantes fast food. Reluzentes joalherias. Vitrines para o sumo da moda. Encomendado durante os Oitocentos pela Companhia das Índias Orientais, o atracadouro serve hoje ao interesse de outras multinacionais.
Desafeito aos mercantilismos, sopro minha nau pelas alamedas arborizadas do Company's Garden. Desvio o trajeto em perseguição a uma harmonia cantada por três vozes de madeira de uma banda de marimbas. Rejeito a fortaleza amurada erguida em forma de castelo pelos holandeses. E vou aprender sobre opressões mais recentes, impostas por outro império.
For use by white persons
These public premises and the amenities thereof have been reserved for the exclusive use of the white persons.
By Order Provincial Secretary
Uso "exclusivo" de áreas "públicas". Idéias contraditórias forçosamente combinadas pelo intuito de separar. Histórias do apartheid...
Um vasto descampado destaca-se no miolo urbano da Cidade do Cabo. Esse estranho vazio, resistência inusitada à voracidade do cimento, na verdade é uma ferida a céu aberto chamada "District 6". Em fevereiro de 1966, a vertiginosa intolerância oficial decretou ao bairro uma só raça. Calcula-se que mais de 60 mil pessoas carregaram suas melaninas para áridos recônditos nos arrabaldes da cidade.
Para não conferir à limpeza étnica insulfladores ares de perseguição religiosa, as escavadeiras receberam ordens para desviar de igrejas e mesquitas: despovoados de fiéis, só ficaram de pé os templos em vão.
Os rostos ficaram peludos sem as lâminas dos irmãos Majiet. As festas perderam a graça sem a regência de Alf Wyllies. As bailarinas engordaram sem as aulas da Profa Suzie. As gangs entraram em recesso sem rivais para enfrentar.
Três meses depois da mudança compulsória, Noar Ebrahim abriu a portinhola que encarcerava seus pombos. Na manhã seguinte, como ele já supunha, não teve de volta nenhum arrulhador. Foi encontrar seus 50 carteiros alados pousados mansamente sobre escombros na Rua Coledon, o endereço que o racismo tomou-lhes a pulso.
Felizmente, a exemplo dos pássaros do Sr. Ebrahim, a democracia também voltou para casa.
Assino minha presença no livro de visitas do Museu do "District 6". E vou experimentar o legado de Mandela: no meu quarto de albergue, divido uma beliche com um estudante de Uganda. Junto com uma americana e um holandês, vamos miscigenar num pub. E enquanto cutuco cores redondas sobre o feltro verde, hidratado por uma espumante Black Label, não resisto às investidas do ataque do Manchester United exibidas em telão.
Diversão mais africana eu teria apenas em outra festa. Desta vez a convite da Shelley, filha da Cidade do Cabo, esvazio cálices de tintos locais e, me esforçando para não desandar o compasso, somo meus tapas latinos numa roda de djembês.
Em confraternização diurna, tomamos assentos num velho besouro azul alugado. Vou de co-piloto, garantindo o itinerário da carcaça enferrujada pela contramão inglesa. O percurso margeia um litoral recortado de baías: dentadas que o mar deu na terra.
Os pinguins fogem em marcha desajeitada. Os babuínos se aproximam, fingindo graça para fazer pilhéria. Até que alcançamos bordas abismais: os penhascos do Cabo da Boa Esperança.
Nessa curva do mundo, muitas embarcações derraparam para nunca mais. Ao sul da África, as correntes marítimas de Benguela e Agulhas trocam seus centígrados formando revoltosas ondulações. Atlântico e Indíco temperando-se mutuamente. Imagem potente: encontro de oceanos às vistas de um povo em aprendizado de se misturar.
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