23 Novembro 2009

Monróvia, a primeira



As cinquenta estrelas da América: uma constelação que acendeu sua potência roubando o brilho dos outros. Por que o Norte é tão rico e a África é tão pobre? Na pergunta é uma resposta: o Norte é tão rico porque a África é tão pobre.

De negros bem aproveitados, veio tripulada uma viagem antiga. Eram os sobrinhos de um tal Sam no leme daquele navio que afundou a Libéria. Desde então, o comandante mantém para si uma suntuosa cabine: a embaixada dos Estados Unidos em Monróvia amura todo um quarteirão. E se fortifica. Numa hospedaria à vizinhança, eu terremoto em sustos de fim de tarde: com dinamites operárias, os engenheiros obram uma explosiva reforma diplomática.

Na arquitetura da guerra, também tiveram responsabilidades de pólvora. Enquanto a nação que partejaram se encharcava de vermelho, os americanos lavavam as mãos: criminosamente, foram demorando as tropas de estancamento para o país em hemorragia.

Em 2003, frustrados pela vista grossa, os liberianos se fizeram enxergar. Em carrinhos de mão, transportaram um mórbido protesto até o palacete imperial: os cadáveres terminaram de sangrar na calçada ianque.

Após muitos inevitados corpos frios, aprumou-se em ação o corpo mole. Hoje, a cavalaria veste capacetes azuis e monta camionetes traçadas. Centenas de alazões possantes cagam carbono por toda a cidade. Grafadas no lombo de lata, as iniciais do proprietário: UN [United Nations, na sigla em inglês].

Apenas os condutores desta frota oficial são licenciados a empurrar automóveis de arame num exclusivo supermercado. A consumidores internacionais, prateleiras poliglotas. A despensa do burocrata humanitário é uma Babel de rótulos. A produção local... é algum planejamento na gaveta do escritório.

Uma revoada de especialistas estrangeiros migrou para irrecusáveis holerites na Libéria. Servidores do Estado de emergência, vão administrando com placebos a conveniente febre nacional. Se o paciente receber alta, em que soro beberão os doutores?

Na escada de uns contatos, subo ao topo da pirâmide social. Os inquilinos de um faraônico condomínio esvaziam seus ar-condicionados sarcófagos pelos refrescos de um rega-bofe no térreo. Com credencial de epiderme, penetro a festa que emoldura uma cristalina piscina. O bem-morar corporativo é rubrica discreta no imodesto orçamento: das (intro)missões da ONU no mundo, esta é uma das principais em cifrões.

Assalariado dessa opulenta filantropia, o aniversariante promove à sua fraternidade um bar benevolente. Sobre o disputado balcão, coquetéis à vontade. Dentro de profissionais decotes, sexo a combinar. Em recesso de bate-ponto, os convivas ouvem estacas.

Habituados à dança de containers no porto, um cartel de importadores também atendeu à promissão de agito. Como convém aos valores democráticos, os empresários vieram se refestelar. Não sendo anônimos na provinciana sociedade, logo se sentiram dentro d'água.

Mas por nadar engolindo álcool, a brincadeira se afogou. Entre os ensopados emergiu uma histórica rivalidade. E eis que tumultua a noite uma ironia: no pombal dos brancos com arruda no bico, não há paz que desatroque os sopapos entre um sírio e um libanês.

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07 Novembro 2009

Robertsport

Brancos... em cestos flutuantes carregaram sua bestial colheita de gente. Noutra margem oceânica, despejaram a carga. E apregoando a supremacia da sua própria claridade, inventaram na história uma terrível escuridão... naqueles idos, parir era dar às trevas: inchada de prenhidão, a africana gestava em si mais uma escravidez.

Sucessivas gerações herdaram na jugular o ariano parasita. Até que os comerciários sanguessugas, insatisfeitos com o lucro de agrilhoar seus semelhantes, vislumbraram na liberdade um negócio mais rentável. Em pacotes de caravelas, despacharam as alforrias de volta ao continente original.

Era 1821, quando os primeiros repatriados desnadaram nesta praia da Libéria. Essa mesma sumaúma, que de incontáveis sóis já fez a sombra, naquela ocasião emprestou-se como atracadouro: no corpanzil da centenária árvore, o capitão Stockton amarrou sua chegada. Desde então, o primeiro nome do truculento marinheiro está ancorado como alcunha no vilarejo de Robertsport.



Pela histórica orla, vou afundando areia. Assento num dos tronos do Reino Mineral. E admiro a maré-molência açoitar minha poltrona dura. Ao longe, o quarteto vem se desembaçando. Até serem nítidos junto a mim. Sobre a pedra, os meninos me dessegredam um mistério:

- This rock was brought by the old people. This rock is growing.

Cobiçoso de mais fantasias, sigo os mal cobertos de farrapos.



Nos pinotes entre si, revezam um bastão de cana. Adiante, outro doce, em escorrimento rumo ao salgado, esculpe barrancos fofos no chão. Nessas beiradas farinhentas, nos deixamos pesar precipitando desmoronamentos de gargalhadas.

Caminhando com pernaltices, a trupe se acrobacia: invertidos, acenam os pés no andar com as mãos. Já ao solo, as palmas recolhem polpas enclausuradas. Os abridores batem até o soar de rachadura: do interior de cascas persistentes, ganho amêndoas frescas.

Noutro pomar, a safra é de altitude. Com imunidade à vertigem, os lépidos se escorregam para cima das pilastras frutíferas. Tendo o cume de todo o coqueiral, o pirralho encorpa no orgulho: - There is no tree for me here.

Dessa vez, deixam cair presentes para a minha sede. E quando ao invés de aguaceiro revelamos um oco, eles me explicam: - The spirit drank it.

Do lixo náufrago que feiúra o trajeto, se converteram exploradores. Calçam um par solteiro, com a sola alisada de passos. Enchem de vazio a seringa de outrora veia. Estilhaçam uma lâmpada sem hóspede de atender três desejos. E caçam tesouros de plástico: na garrafaria descartável, suas mães formatarão à venda o óleo de dendê.

Seus pais dançam a sincronia do arrasto. Em vigorosa manobra, o trançado abocanha a presa. A rede vem pulsante, tremeluzente, convulsiva de um cardume se afogando no oxigênio.



Sempre levando ou fazendo chegar, o mar. Deita agora em terra firme a canoa pesqueira. Em ondas passadas, veio dar neste mesmo aqui aquele navio inaugural...

Ao partir, foram oprimidos. Seus descendentes voltaram opressores. Aprenderam na América que sobre um há sempre outro. Então se embranqueceram para encimar a própria raça. É a sua vez de senhorio: aos nativos, a senzala.

Mas à noite de mais de um século sucede o dia de arrombar a Casa Grande: em 1980, os “escravos de hoje” declararam guerra aos “escravos de ontem”.

Com as crianças, aprendi em Robertsport: os antigos colocaram uma pedra à entrada da Libéria. Uma pedra que cresceu. Cresceu de explodir. 



13 Outubro 2009

Ladies and Gentlemen...

Part I



Part II

01 Outubro 2009

O arrefecer de um inferno



[Trechos do livro “Ébano – Minha vida na África”, de Ryszard Kapuscinski]



Em 1821, um navio procedente dos Estados Unidos atracou [em Monróvia]. Nele vinha Robert Stockton, agente da American Colonization Society. Com o cano da pistola encostado na têmpora do chefe da tribo local, rei Peter, Stockton forçou-o a lhe vender, por três mosquetes e um caixote de contas de vidro, uma área na qual a tal sociedade pretendia assentar os escravos recém-libertados das plantações de algodão americanas. A sociedade de Stockton tinha um caráter liberal e caritativo. Seus fundados estavam convencidos de que a melhor forma de compensar os ex-escravos pelos sofrimentos aos quais haviam sido submetidos era enviá-los de volta à terra de seus antepassados – a África.

Desde então, ano após ano, navios e mais navios trouxeram dos Estados Unidos grupos de escravos libertos que começaram a se estabelecer na região onde hoje é a Monróvia. Não chegaram a formar uma grande comunidade. Quando, em 1847, fundaram a República da Libéria, eram em torno de 6 mil. Possivelmente, nunca ultrapassaram algumas dezenas de milhares, ou seja, menos de um por cento da população local.

O destino e o comportamento desses américo-liberianos, como eles mesmos se autodenominavam, são fascinantes. Ainda ontem eram escravos nas plantações no Sul dos Estados Unidos, desprovidos de direitos e párias da sociedade. (...) Agora, (...) encontram-se de novo na África, na terra de seus antepassados, em seu mundo, entre conterrâneos com raízes comuns e a mesma cor de pele. (...) Como se comportarão? O que farão? Ao contrário do que esperavam seus benfeitores, os recém-chegados não beijaram o solo ancestral nem se jogaram nos braços de seus irmãos africanos.

Esses américo-liberianos só conhecem, e por experiência própria, um único sistema social – o escravocrata, que vigorava até então no Sul dos Estados Unidos. Dessa forma, a primeira providência que tomam ao chegar à nova pátria é introduzir ali o mesmo sistema; a diferença é era que agora os escravos de ontem passavam a ser os senhores e as populações locais, que eles dominariam, transformavam-se em seus escravos.

A Libéria nasceu de um sistema escravocrata instituído por escravos que não quiseram desmantelar essa estrutura social injusta, pretendendo antes mantê-la e desenvolvê-la em proveito próprio.

(...) Desde que chegaram à Libéria, os negros da América passaram a imaginar formas pelas quais pudessem reforçar sua posição dominante no novo país. Começaram por não permitir que os habitantes locais participassem do governo ao negar-lhes a cidadania. Depois, delimitaram os territórios nos quais as tribos podiam viver. Em seguida, foram ainda mais longe – inventaram o sistema de partido único. Um ano antes do nascimento de Lênin, portanto em 1869, surgiu em Monróvia o True Whig Party, que se instalaria no poder por 111 anos na Libéria, ou seja, até 1980.

(...) Na madrugada de 12 de abril de 1980, dezessete soldados comandados pelo sargento Samuel Doe tomaram de assalto a residência presidencial, invadiram o quarto de William Tolbert e o esquartejaram no leito. Arrancaram suas tripas e as atiraram pela janela para que cães e abutres as devorassem. Doe era um jovem (tinha 28 anos) semi-analfabeto da tribo Krahn, que vivia no interior da selva. Era um dos tantos que, expulsos das suas aldeias pela pobreza, chegavam a Monróvia em busca de ocupação e de algum dinheiro.

(...) O golpe de Estado na Libéria não foi a simples troca de um chefe político corrupto por um semi-analfabeto uniformizado; também foi uma revolta sanguinária, cruel e caricata das semi-escravizadas populações tribais contra seus soldados opressores, os descendentes dos escravos das plantações americanas. Deu-se uma reviravolta no mundo dos oprimidos: os escravos de hoje se revoltaram contra os escravos de ontem.

(...) Doe nomeou-se presidente e mandou executar imediatamente os treze ministros de Tolbert. As execuções levaram tempo e foram acompanhadas por uma multidão curiosa e excitada.

(...) Não se pode dizer muito de seu governo, que durou dez anos. Durante esse período, o país simplesmente parou. Não havia luz elétrica, as lojas permaneceram fechadas e as poucas ruas e estradas liberianas ficaram às moscas.

(...) Sem saber como agir e como se proteger da inevitável vingança dos parentes dos que havia mandado executar, cercou-se dos membros da sua tribo Krahn – trouxe-os em massa para Monróvia.

(...) Na opinião dos membros da tribo, a única forma de se manter no poder seria assustando ou eliminando os inimigos, reais ou imaginários, ou seja, todos os que não fazia parte da tribo Krahn. Diante disso, (...) desde o início de põem a aterrorizar o país.

(...) É compreensível, portanto, que todo o país aguardasse ansiosamente uma oportunidade para se livrar de Doe e de seus seguidores. A oportunidade surge através de certo Charles Taylor. (...) Em dezembro de 1989, (...) Taylor declara guerra a Doe. Taylor poderia ter sido facilmente derrotado, mas as tropas de Doe, formadas pelos guerreiros descalços da tribo Krahn, em vez de combater as forças inimigas, começaram a roubar e saquear tudo em volta assim que saíram de Monróvia. A notícia do avanço desse bando de saqueadores espalha-se pela selva e a população, apavorada e tentando se salvar, começa a se juntar às forças de Taylor, que crescem rapidamente e, em menos de seis meses, chegam às portas de Monróvia. Nesse momentos as tropas de Taylor sofrem uma cisão: quem vai conduzir o ataque final à cidade? De quem será a pilhagem? Prince Johnson, chefe do Estado-maior e também um antigo colaborador de Doe, rompe com Taylor e cria seu próprio exército. Agora, são três exércitos lutando entre si nas ruas de Monróvia: o de Doe, o de Taylor e o de Johnson. A cidade se desfaz em ruínas. Bairros inteiros ardem em chamas e as ruas cobrem-se de cadáveres.

(...) A guerra prosseguiu depois da morte de Doe [capturado e torturado pelas tropas de Johnson]. Taylor lutava contra Johnson, ambos lutavam contra o que havia restado do Exército liberiano e, contra todos eles, lutavam os exércitos interventores de alguns países da África que, sob a sigla ECOMOG [Economic Community of West African States Monitoring], pretendiam estabelecer a ordem na Libéria.

(...) Essa luta fratricida não era conduzida, obviamente, por programas políticos, ideais democráticos ou princípios de soberania. Tratava-se apenas de pôr a mão no dinheiro. Doe manteve as suas nele por dez anos, e seus ex-companheiros achavam que já era o suficiente.

Despedida



Os pingos estouram uma pipocaria nos zincos de Buduburam. Boquiabertos, os baldes engolem a água que cachoeira das telhas.



Os anfíbios desenrolam lambidas nos mosquitos fugazes brotoejados da chuva. Para hidratar os artesianos da terra, os poços do céu se manifestaram em fartura.

Os corredores do refúgio estão um charco de plásticos. Pelo chão, as saliências mais protuberantes, que no seco atentam tropicões, no alagado têm serventia de ponte: vou pelo caminho das pedras. Até que, discreta estampa no tapete de tralhas, um ordinário pote de manteiga penetra minha indiferença.

Interrompo-me, intrigado. Foi um baixo volume que soou no meu percebimento. A embalagem ainda está lacrada como inédita. Lá de dentro, ouço um choramingo triste de criança.

Recolho o melancólico lixo. E aproximo-o da audição: não há dúvida. Com uma aflita curiosidade, arranco a tampa... uma repugnância me assalta: o que descubro é um aglomerado populoso de pulsantes e viscosas minhocas.

Assim que a imagem vira conteúdo na minha consciência, empurro o recipiente com um rompante de asco. Mas é tarde: já estou coberto de rastejâncias por toda a superfície.

Exponencialmente, as desesperadas fomes procriam. E penetram-me o subcutâneo em busca de se saciar: às custas de robustecer seus diâmetros, degenero num apressado definhamento. Os vorazes anelídeos fazem húmus de mim.

Tento apagar minha ardência com uma histeria. Estou aturdido numa agitação inócua para desenterrar-me o tormento. Demoro a perceber o socorro das ciscadas na minha pele: tendo encontrado poleiro no meu ombro, um pássaro, impassivelmente, faz banquete do que me devora.

No bico, a ave traz uma oportuna simbiose. Por fim, terminamos melhor: um limpo; o outro gordo.

Antes de seguir, numa decolagem pesada e satisfeita, meu alado redentor anuncia sua saída com um exótico assobio: ao invés de pio, seu canto é um tilintar de sininho... tlim, tlim, tlim... tlim, tlim, tlim... tlim, tlim... sobressalto na rede. Tlim, tlim, tlim... tlim, tlim... - Sabão em barra!

Acalantado pelo teto se molhando de um chiado bom para dormir, aprofundei no sono. As badaladas da vendedora vêm me despertar.

Ainda enevoado pelo onírico, saio à nublada manhã. As crianças se despem da sujeira antes de vestir a farda de estudar. Nuas ao ar livre, tiram o banho de dentro do baldinho. Nas cerdas esfregam seus sorrisos: espumadas de higiene, me bomdizem.

As panelas estão sentadas sobre calor. Pelo fundo em brasas, requenta-se a memória de uma refeição antepassada: os liberianos começam hoje com o risoto de ontem.

Entre os locais, degusto outros sabores de quebrar jejum. Nas papilas do meu paladar, alimento uma preferência. Minha assiduidade acontece há semanas. O menino até desnecessita do pedido: ao cliente forasteiro, é dupla a dose de mingau de milho com picância de gengibre.

Adiante na rota matutina, sou o mesmo previsível. Antecipando-se à minha rotineira visita, Lucy repete uma frequente gentileza: reservada num canto, indisponível ao público, fumega minha particular fatia de pão de arroz.





Manequim de jardim, a confeiteira acaricia as mãos oleadas no avental de girassóis. Dois botões vermelhos florescem-lhe em tarraxa nas orelhas. Na fachada do rosto, frutificam-lhe maças polpudas. Imerso em pote e meio de creme relaxante, o escalpo estica-se para trás num tensionado penteado. Uma moldura carnuda, sem vaidade de batom, adorna-lhe a boca pequena.

Lucy não tem cotidiano para maquiagens. Madrugada no expediente, sua jornada é ampliada. Por vezes, estende-se em hora extra agitando-lhe o descanso. Ontem mesmo, panificou no travesseiro: primeiro, submeteu os grãos à mandíbula do pilão. Em seguida, abananou o pó de amido. E para adicionar dourado à recente mistura, abrasou o carvão. Mas ao voltar-se novamente para a vasilha roxa preparada de massa crua, um desastre: fora roubada!

Misturando ingredientes do dia-a-dia num pesadelo, o inconsciente dramatiza seus mais íntimos temores de desaparecimento...

- Agora só consigo me carregar o corpo numa roupa. Você não pode ir assim. Tem seus acessórios de cozinha. Minha partida é preparação da sua chegada.

A ausência vai aparecendo aos pedaços. O primeiro fragmento: uma gaiola vazia.

Entre as três aves outrora confinadas, havia aquela de uma exótica fertilidade: pela cloaca, botava relógios. O caso é de fato. Mergulhados no fundo de um recipiente com recheio líquido, seus ovos flutuam pontualmente: a cada sessenta minutos, uma levitação. Mais uma hora e outro passo acima. Até que às doze diurnas, a lâmina d'água divide a casca branca em partes iguais: metade imersa, metade emersa. É como um sol de clara e gema alvorecendo para ficar a pino.

Mas ao pressentir a despedida do seu cuidador, o pássaro cronômetro decidiu fugir de si. Desorientado no tic-tac, adiantou-se os ponteiros: uma doença fulminante precipitou o fim do seu tempo.

Já a dupla de sankofas cumpriu seu destino mitológico. Espécimes lendários, pescoçaram sua direção ao passado: com as asas destreinadas de bater na liberdade, regressaram à mata das suas origens. E assim, soltando-lhes da sua posse, o redimido carcereiro escreveu na vida uma metáfora da sua iminente viagem.

Lucy poderia prendê-lo com mandinga. Talvez lavar-lhe o nome no mijo. Ou temperar-lhe o almoço com alguma amarração. Mas sua índole não é de boicotar auspícios. Nem muito menos de enciumar-se das bem-aventuranças. Prefere ter fé na fidelidade. E com seu melhor pano, costura-lhe uma recordação branca.

Ante o portão de embarque, ambos estão trajados de nuvem.

Ela engole a chuva.

Ele sobe ao céu...

Eu e Kaba voamos juntos para a Libéria.


02 Setembro 2009

Calabash

O único em pé rodeia a criançada concêntrica. Vai contornando o círculo entre palmas. Estão todos aguçados pela iminência que... enfim!: com um cutucão repentino, o moleque que espreitava dispara, nas costas de um escolhido, o gatilho da folia. O alvejado se levanta em frenética perseguição ao pequeno estopim.

Redondam, tangenciando os demais alvoroçados. Até que o primeiro finaliza o giro, alcançando o lugar esvaziado pelo segundo. Toma assento, remendando a seqüência interrompida. E deixa o outro erguido, na sua vez de caçar um vão para se acomodar.

Lá no alto, os planetas imitam a brincadeira: ao redor de uma elipse, correm atrás de si mesmos. E por terem esquecido aonde foi o começo, nunca experimentam chegada. Vagam contínuos. No espaço, não marcam o tempo. Nós daqui é que contamos: hoje, Saturno completa uma volta em torno da minha irmã.

O coro infantil, adoçado com suco e biscoito, festeja aquele dia, há 29 anos, em que a querida caçula, à galope num lombo taurino, chegou ao zodíaco da família. Nesta data de celebração, estrelas africanas nos oferecem um espetáculo ao ar livre: - Ladies and Gentlemen, please put your hands together to the Calabash Unite Us All!


A artística constelação irradia brilhos de ontens. São estilhaços de remotas tradições. Cintilâncias que se alimentam em fontes longínquas. Lúmens que viajaram através das épocas... é antiga a noite que assistimos no céu.

Os antepassados acenderam uma fogueira nalgum universo paralelo. Aquecidos por esse calor ancestral, os tambores espreguiçam suas peles. E acordam o mundo trovejando ritmos no firmamento. Atiçados pelo batuque eletromagnético, os corpos celestes requebram.

E exibem um balé frenético de rotações e translações.

E desafiam as leis da física com acrobáticos saltos quânticos.

E alcançam órbitas elevadas, onde operam astromagias: com a cortância de uma lâmina, sangram o próprio globo ocular.

E cospem cometas de querosene (os djembês estão quentes, estalando sonoras crepitâncias).

E transformam em pó o conteúdo de uma lata fechada. Depois em creme novamente: para comprovar o inacreditável, a platéia agora bebe a Via Láctea.

E eu ali, entre os incrédulos. São minhas primeiras horas em Buduburam. Estou ainda fresco de chegada e já me servem assim: de bandeja, numa cuia de cabaça, uma dose generosa de cultura da Libéria.

Com a sede aguçada pelo drinque de boas-vindas, volto a casa do líder do Calabash. Aperto cumprimento num couro áspero e curtido: as palmas de Wesley Davies são como a manta morta que cobre seu instrumento.


Eu, por minha vez, trajando luvas mais aveludadas, tiro umas brasileirices do pandeiro. Que logo se cala, tímido, quando a garganta de madeira começa a cantar:

- Kity Ca Gen Kity Ca!

Abraço o tambor entre os joelhos. E repito o introdutório. Mas pelo meu eco, o som não tem o mesmo estéreo. Meu destreino tira a fluência da cadência.

Em desajeito manual correspondente, o docente tenta acomodar uma caneta entre seus calos. Custa deitar sua oralidade no papel. Mas ele sabe que é preciso gravar as lições com tinta esferográfica: só assim ficarão devidamente pintadas na memória letrada do seu novo aluno.

Alguém interrompe a aula fazendo percussão no capacho. Depois de bater solas, empurra um rangido... é Papito, o outro inquilino. Na época em que cultivava tranças embolotadas como as que decoram Wesley, o pioneiro rastafári prensou até vinil. Foi quando o apocalipse alcançou o topo das paradas na Libéria. A guerra tomou-lhe a carreira, a esposa, os irmãos e o homem que lhe compôs. Para o cólera, deixou sua obra maior: os dois filhos.

O artista, entretanto, ainda crê em sinfonias. No exílio em Gana, persiste em manter a vida no tom. Todos os dias, procura alguma clave de sol para tirar da escuridão o seu próximo compasso. Vai andante, regido por uma fé. E não está só: embaixo do teto e em cima do palco, o mesmo parceiro:

- Wesley, it's time to church.

Domingo em Buduburam. Os armários perdem para a rua as suas melhores elegâncias. Os masculinos em vincos gomados, sóbrios, de nó na garganta. As femininas em galas aberrantes, coloridas, de turbante na cabeça. Como adereço unissex, uma bíblia a tiracolo.


Em obediência ao sagrado recesso, o comércio quase unânime veste o mesmo uniforme: portas fechadas. Tendas de comida, salões de beleza, ateliês de costura, mercearias... todos sob a mesma devoção. Ao se inaugurarem, foram banhados por seus empreendedores numa pia batismal. Agora, dizem suas graças em letreiros: “God is Powerful” Eletrical Systems. “Almighty” Fast Food. “Oh Lord Have Mercy Upon Me” Hot Dogs. Outro estabelecimento faz um comunicado à praça: “Credit is dead. Jesus is alive”. Abençoada seja esta informal economia.

Nesta terra de refúgio, o Senhor tem muitas moradas. São variados os padrões imobiliários: de palácios vaticanos a choupanas franciscanas. Aqui as igrejas multiplicam-se como pães para suprir de abrigo a Sua onipresença. Vai-se de um sermão a outro em poucos passos. Diante de numerosos rebanhos ou meia dúzia de ovelhas, há sempre um verborrágico pastor vociferando a Palavra.

E não pregam à capela. Os africanos salpicaram pimenta na língua morta. Agora reprisam o latim deixado pelos missionários, mas com uma pitada quente do seu próprio ziriguidum. Os cultos em geral são uma contagiante catarse gospel com marcapasso de batucada.

O percussionista já vem. Na iminência do horário, é apressado por Papito, que arremata o lustro no jacaré que pretende calçar. É o par mais vistoso dentre toda a coleção ensacada num canto da sala. Vendendo sapatos: dessa maneira a dupla vai levando, enquanto a música não lhes solfeja sustento.

Sem relógio suficiente para o ritual do banho (buscar água, ir ao lavatório comunitário, assear o corpo, cumprir o retorno e finalizar o aprumo), Wesley embebe um pano com sabão diluído e esfrega nas anatomias: - Military shower, me ensina.

O método é bem conhecido pela sua geração. Assim vem sendo na história do continente: alguns adultos inventam o armistício. E depois empurram a juventude para a linha de frente. E engrossam suas fileiras picando no braço armado uma injeção cavalar de hormônios da puberdade. E amordaçam o inimigo com uma faixa etária mais nova... carnes novilhas expostas ao abate: a serviço de um “Estado-maior”, pelotões de meninos são colocados em marcha fúnebre.

Mas Wesley é além: por gozar de alta patente nas Forças Aladas, teve sempre um exército invisível assegurando-lhe cobertura. Besuntado de óleos com perfume de mandinga, fez-se escorregadio para as garras da tragédia. Atrás do seu escudo de amuletos, ouviu o ricochetear dos atentados: diante de tão encantada presença, os projéteis perdiam a substância e atravessavam-lhe na forma de etéreos zunidos.

Por ser recipiente de tradições, o oculto protegeu-lhe o barro. E tomou-lhe pelas mãos grossas conduzindo-lhe à saída: com passos de danças liberianas, o saltimbanco foi se encaminhando para longe do palco bestial. Chegou até a Nigéria, onde encontrou asilo na trupe do legendário Fela Kuti. E finalmente a Buduburam, campo em que vem cultivando o Calabash.

Por ironia, foi justamente neste porto seguro, durante uma colheita de aplausos, que o improvável sucedeu: Wesley caiu gravemente ferido. O conto é que um pequeno espectador, imantado pelo magnético circo, desagarrou-se do respeitável público e adentrou abruptamente o picadeiro, interpondo-se na trajetória de uma ginástica sequência de piruetas. De dentro dos seus rodopios, o acrobata percebeu-se rolo compressor e contorceu no ar uma tangente. Logrou desviar do alvo. Mas no pouso forçado, sob o peso da sua acelerada descendência, destroçou o antebraço no duro do chão.

O tribunal da ortopedia bateu o martelinho médico na madeira e impôs-lhe uma condenação. A sentença: seu espatifado membro irremediavelmente inválido para a cultura. Precipitada ciência... o cético prognóstico desconsiderou a sobrenaturalidade do paciente: três meses depois da fratura, Wesley já estava retumbando a tampa do seu tambor.

Um alumínio ficou aparafusado ao seu cálcio. Novamente, uma carga inseparável na sua empunhadura. Mas diferente daquele outrora bélico, o metal que agora carrega junto ao osso esquenta por disparar ritmos: as rajadas que distribui na pele do djembê deixam as canções embaladas. Sob as suas saraivadas, os dançarinos ficam em polvorosa: o tempo atual é da música. Artilharia, só com os pés...

Após o expediente religioso, Wesley desdobra a genuflexão para comungar atrás de bola. Com ele, vai a massa: em Buduburam, o futebol é um hegemônico fundamentalismo. Quase inexiste minoria que não atenda aos cultos diários: acotovelados em torno de uma tela evangelizadora, os torcedores exacerbam suas fidelidades. Para adorar venerandos ídolos, vestem indumentárias numeradas, como se fossem mantos sagrados. Os santos de casa estão operando milagres no exterior. Uma milionária cruzada publicitária das congregações européias converte legiões de fanáticos na África.

A doutrinação é precoce. Nessa geologia soterrada de engenharia, os raros vãos livres e desconstruídos estão, no mais das vezes, ocupados como arena esportiva pelos moleques: com um graveto feito grafite, eles desenham no pó terreno o círculo central. Um fundo de residência passa a ser trave com rede de tijolos. Um entre-árvores serve para ser a outra meta. E em morosa correnteza pelo saneamento exposto, as imundíces da vizinhança serão a linha lateral.

Antes de inaugurarem os pontapés, cada um escolhe sua fantasia: - I am Kaka! I am Messi! E assim, devidamente incorporado de craques arianos, o quarteto se junta em bloco febril para castigar um capotão estropiado e murcho. O quinto, café com leite, vai pelas beiradas chutando o ar.

Entre os marmanjos meus contemporâneos, a mesma efervescência pueril. Especialmente comigo. Ao saberem-me a origem, cresço antes seus olhos surpresos como uma mitologia materializada: “então, os brasileiros... aqueles a quem sempre admiramos num panteão, como deuses em chuteiras, vejam só: também praticam sua existência aqui; terráqueos; conosco; mortais!”. Cruzamos então essa ponte criada entre nossas identidades confirmando juntos a escalação do ataque canarinho. Com tal credencial de nacionalidade, não tardei a ser convocado...


Lubrifico minhas ferrugens sob os holofotes atentos da arquibancada. Me faço mais longo. E posiciono-me em prontidão. Serei linha avante com Fourd, um dos esguios bailarinos da frente do Calabash.


Na zaga, Osmar vai trocar o xequerê pela retranca. Mas antes que o apito dê a partida, sou condecorado: um dos meus aliados vem envolver-me o braço com uma apertada insígnia de capitão. Com a honraria, sei que estou assumindo, ao mesmo tempo, dois estereótipos: como brasileiro, esperam-me boleiro fenomenal. Como branco estrangeiro, um patrocinador em potencial.

Desprovido de justa bilheteria, parte considerável do elenco quimera os tapetes verdes do Velho Mundo. Querem suar profissionalmente, como pé-de-obra nalguma abastada agremiação. Muitas vezes é assim: só mesmo com virtudes atléticas para desatolar deste terreno estéril de oportunidades.

Tendo honrado a mística verde e amarela (em três contendas, duas assinalações!), vou conhecer a academia onde Cris (vulgo Body & Soul), esculpe sua profissão: à entrada de uma boate frequentada por bacanas de Acra, o musculoso leão-de-savana arrecada suas proteínas intimidando arruaças. Para não murchar o rendimento mensal, toda manhã é preciso fermentar a massa corpórea. Às 6 do dia, me adiciono ao treino.

O convite me soara conveniente: numa só atividade, me enrijeceria para o vigor físico da várzea liberiana e, de quebra, ainda engrossaria uns calos para a percussão... com tal inocência no pensamento, adentrei o saudável recinto. Aparado num tronco robusto, o indefectível espelho mostra a narcisos os seus inchaços. Ao redor da pilastra da vaidade, chapas de zinco foram plantadas como parede.

Vou recebendo apertos de torno mecânico como saudação. E então, ainda bocejando a sonolência, sem nenhuma firula prévia de aquecer, sou atropelado por um eixo de caminhão no supino. Artesanato engenhoso, os haltéres são improvisados com escombros de automóveis. Os fisiculturistas puxam ferro velho. E diante das minhas súplicas por um roda dentada mais leve, entoam em coro sua pedra filosofal: - No pain, no gain!

Por mais de uma semana, arrastei-me em Buduburam numa dolorida desenvoltura. Tarefa descomunal era esfregar o almoço dos dentes. E foi como pegar no colo um homem feito, quando George acomodou nos meus bíceps inflamados Andrew, o seu recente primogênito.

Ainda ontem o rebento nadava na escuridão aconchegante da sua vida em imersão. Desafogá-lo da placenta custou à família 40 cedis [cerca de R$ 60]. Eis a prática por aqui: esvaziar o bolso para encher a barriga. Pingar moedas para comprar água. Descobrir o orçamento doméstico para alugar um teto. Contar cifrões para aprender a tabuada... a declaração de direitos básicos dos refugiados é uma tabela de preços. Nem nascer é gratuidade.

Com o advento de uma criança pendurada no seu balancete, George agora precisa reforçar o batente. Habituado a se contorcer como corpo de baile do Calabash, o desossado dançarino, maleável como um recém-parido, desdobra-se atrás de sua tenda mercante para oferecer ao público outros entretenimentos. Bilhar, cigarros e, principalmente, Dry Captain: é molhando com gim o bico dos fregueses que o pai leva ao ninho o de beber do lactente.


Ao chegar à idade de mamar no seio da cultura, Andrew será provido de um nutritivo folclore. Emendados nos sucessores de sua linhagem, os artistas rodam a ciranda das gerações. Semanalmente, imprimem posteridades em meninos e meninas: à sombra de uma árvore, lembram aos internos de um orfanato a sua ancestral genealogia.

A inoculação deve ser logo, na miudeza. Crescendo a gente esquece o inato na desmemória. Mas na alvorada da existência, ainda temos dentro do ouvido o som do tambor primordial.

Por isso, quando Wesley repercute um batuque na varanda de sua casa, toda a infância das redondezas reconhece a pulsação. Como uma nuvem de mosquitos em hipnose de lâmpada, a patota brota das vielas e acorre ao chamado. Acometidos de coceguinhas incontroláveis, tremelicam num sassarico convulsivo: seus corpinhos estão possuídos pela música.

Este é o exorcismo inaugural do djembê que Wesley concebeu para me deixar como legado. Acompanhei todo o trabalho de parto. Primeiro, a carcaça de madeira: tal qual um cálice de servir acústica. Os poros abertos por papel esfoliante se encharcaram de verniz (entalhada como um atestado de procedência, a África brilha).

Depois, um zarcão de pano embrulha as argolas oxidáveis. Ao tecido vermelho costura-se um franjado: quarenta anéis de naylon em torno do aro quinze. Por fim, as cordas vocais esgarçadas. Agora a couraça de bode, devidamente barbeada, pode berrar com afinação.

Mas para que eu mereça o eloquente instrumento, terei que atingir tonalidades mais elevadas. Tambor não é apenas lombo de lapar: é um através. Uma falância por onde se pronunciam vozes sutis. E altas: a música nasce muitas oitavas acima da escala terrena. Para vibrar esse diapasão em mim, sigo Oldman.


Neste franzino sem tamanho cabem todas as coreografias do Calabash. O caudaloso repertório escorre por suas solas nuas: durante as apresentações o bailarino calça um par de espevitamentos. E mesmo quando vestiu coturnos: na linha de tiro, foi alvo lépido. As balas que lhe alcançaram chegaram depois. Só encontraram o seu raspão.

Sim, ele retornará suas cicatrizes à Libéria. Mas antes, se cobra algum acúmulo. Entre todas as dores que acomodou na carne, nenhuma seria pior que o orgulho ferido. Não quer voltar aos seus abanando vazio. Falta-lhe o aquisitivo. Em compensação, sobram-lhe outros poderes...

Investido pelo sobrenatural, seu capital é volátil. Sua herança é um dom. Tomando empréstimos à sabedoria antiga, Oldman tornou-se afortunado de belezas. Já conheci-o assim, generoso, decorando o mundo com enfeitiços.

Agora mesmo, à minha frente, vai carregando um ilusionismo: na aparência de balde plástico, o performágico adiscreta seu caldeirão. Hoje, me servirá um mistério misturando seus segredos.

Acostumado ao trânsito por veredas esotéricas, meu guia carrega-me no encalço por um caminho que desconfio nunca mais ter existido. Vamos por essa senda fantástica. Até encontrarmos o destino num ermo matagal...

Tomo um banho de luz me esfregando com estrelas. Em plena meia-noite raia a melodia. Como marulho em concha, tenho no ouvido o absoluto: é o inaudível prestigiando-me a audiência.

Um coral de setecentos espíritos me encantoria.

E me oferenda um escudo de miçangas.

E mija na minha sede.

E navalha uma fresta nos meus pulsos: pela comporta do sangradouro, um pó escuro se hemorragia dentro de mim...

Derretida a cerimônia, ainda estou aceso numa lenta metamorfose: prossigo tal uma parafina demorada de incandescência. No regresso, vou queimar pavio na casa de Wesley.

O motivo é outro ritual: um morto célebre está sendo velado ao vivo. Assistimos o funeral do excêntrico ídolo pop. À semelhança da tevê de duas cores do Papito, ele também foi preto e branco.

Projetando-se no finado ícone, os aspirantes ao sucesso prestam o luto como classe artística. Já eu, quero o oposto do despigmentado defunto. Meus respeitos devo ao Calabash: dentro da roupa alva em que nasci vestido, começa a viver um homem mais negro.



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04 Agosto 2009

Djembe