23 Maio 2009

Cidade do Cabo



Prateleiras aliviadas. Gavetas ocas. Bolsos sem chaves. As coisas foram se despertencendo de mim. Aos ombros, restou somente o essencial.

Despacho meu breve patrimônio (do imaterial continuo bem equipado). E vou abrindo portões de embarque com pedaços de papel. Devidamente apoltronado, com o 'groove' do Fela Kuti acolchoando minhas orelhas, assito ao painel que televisiona minha rota. Dentro do navio atmosférico espero 8 horas sobre-atlânticas. Depois, apresso meu relógio em 5 voltas para sincronizar as pontualidades: às 11 da manhã do dia 12 de maio, aporto na Cidade do Cabo.

O calor dos abraços de despedida, ainda frescos no meu colo, não é agasalho suficiente. Um prefácio do inverno impõe cobertura extra às peles multicoloridas que habitam e visitam a municipalidade mãe da África do Sul.

Testemunha daquele encontro entre holandeses e Khoi-Khois em 1652, a Table Mountain também ostenta trajes polpudos: um denso nevoeiro envolve o maciço de pedra que protagoniza boa parte dos cartões-postais da região. Para alguns, a cortina úmida é vento sudeste condensado. Para outros, é a fumaça do cachimbo de Jan Van Hunks, um fumante inveterado que, desde os tempos da colônia, sobe a este elevado para dar uns tragos com o capeta.

Mito ou meteorologia, o fato é que a montanha veste-se de inacessível. Terei que me contentar com os passeios horizontais.

- Keeepp Taaawwnn!!

Da janela da van, o cobrador berra meu destino. Como resposta, ergo o braço oferecendo-me passageiro. Do subúrbio onde estou hospedado até o centro, vamos de esquina em esquina acolhendo pedestres convertidos (no grito) em clientes. Entrego 5 Rands (cerca de R$ 1,25) ao garganta. E quinze minutos depois, o coletivo me cospe no ponto final.

Vestuário para o frio. Pacotes de artificialidades comestíveis. Bugigangas eletrônicas. São as ofertas ambulantes. Há até um salão de beleza, improvisado entre paredes de lona, prometendo tranças àquelas querendo se enfeitar. Mas conforme afundo os passos nos quarteirões históricos, a vitalidade do comércio em torno da rodoviária vai arrefecendo. Ao sopé de prédios seculares, calçadas limpas são passarela para o turismo, que desfila despreocupado sob a vigilância adornada com coletes verdes.

Assim também no Porto. Letreiros ofuscantes de restaurantes fast food. Reluzentes joalherias. Vitrines para o sumo da moda. Encomendado durante os Oitocentos pela Companhia das Índias Orientais, o atracadouro serve hoje ao interesse de outras multinacionais.

Desafeito aos mercantilismos, sopro minha nau pelas alamedas arborizadas do Company's Garden. Desvio o trajeto em perseguição a uma harmonia cantada por três vozes de madeira de uma banda de marimbas. Rejeito a fortaleza amurada erguida em forma de castelo pelos holandeses. E vou aprender sobre opressões mais recentes, impostas por outro império.

For use by white persons

These public premises and the amenities thereof have been reserved for the exclusive use of the white persons.

By Order Provincial Secretary

Uso "exclusivo" de áreas "públicas". Idéias contraditórias forçosamente combinadas pelo intuito de separar. Histórias do apartheid...

Um vasto descampado destaca-se no miolo urbano da Cidade do Cabo. Esse estranho vazio, resistência inusitada à voracidade do cimento, na verdade é uma ferida a céu aberto chamada "District 6". Em fevereiro de 1966, a vertiginosa intolerância oficial decretou ao bairro uma só raça. Calcula-se que mais de 60 mil pessoas carregaram suas melaninas para áridos recônditos nos arrabaldes da cidade.

Para não conferir à limpeza étnica insulfladores ares de perseguição religiosa, as escavadeiras receberam ordens para desviar de igrejas e mesquitas: despovoados de fiéis, só ficaram de pé os templos em vão.

Os rostos ficaram peludos sem as lâminas dos irmãos Majiet. As festas perderam a graça sem a regência de Alf Wyllies. As bailarinas engordaram sem as aulas da Profa Suzie. As gangs entraram em recesso sem rivais para enfrentar.

Três meses depois da mudança compulsória, Noar Ebrahim abriu a portinhola que encarcerava seus pombos. Na manhã seguinte, como ele já supunha, não teve de volta nenhum arrulhador. Foi encontrar seus 50 carteiros alados pousados mansamente sobre escombros na Rua Coledon, o endereço que o racismo tomou-lhes a pulso.

Felizmente, a exemplo dos pássaros do Sr. Ebrahim, a democracia também voltou para casa.

Assino minha presença no livro de visitas do Museu do "District 6". E vou experimentar o legado de Mandela: no meu quarto de albergue, divido uma beliche com um estudante de Uganda. Junto com uma americana e um holandês, vamos miscigenar num pub. E enquanto cutuco cores redondas sobre o feltro verde, hidratado por uma espumante Black Label, não resisto às investidas do ataque do Manchester United exibidas em telão.

Diversão mais africana eu teria apenas em outra festa. Desta vez a convite da Shelley, filha da Cidade do Cabo, esvazio cálices de tintos locais e, me esforçando para não desandar o compasso, somo meus tapas latinos numa roda de djembês.

Em confraternização diurna, tomamos assentos num velho besouro azul alugado. Vou de co-piloto, garantindo o itinerário da carcaça enferrujada pela contramão inglesa. O percurso margeia um litoral recortado de baías: dentadas que o mar deu na terra.

Os pinguins fogem em marcha desajeitada. Os babuínos se aproximam, fingindo graça para fazer pilhéria. Até que alcançamos bordas abismais: os penhascos do Cabo da Boa Esperança.

Nessa curva do mundo, muitas embarcações derraparam para nunca mais. Ao sul da África, as correntes marítimas de Benguela e Agulhas trocam seus centígrados formando revoltosas ondulações. Atlântico e Indíco temperando-se mutuamente. Imagem potente: encontro de oceanos às vistas de um povo em aprendizado de se misturar.

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04 Maio 2009

Olhos verdes

Para Carol



No teto do meu relento, um par de estrelas verdes acendeu.
Inspirado por esse lume celeste, levantei os ferros.
Desfraldei as velas à maresia. Dei o rosto ao vento.
E ao beijar-te os astrolábios, me enchi de direção.

Singrei as águas com emergência.
No meu tempo de ampulheta, os grãos da noite esvaíam. Inevitavelmente.
Até que a manhã fez-te invisível.
Sob as pálpebras do dia, não vi mais tua miopia.

Com o norte apagado, à derivei.
O escuro constelou luzes que eu não queria.
As duas esmeraldas fizeram-se cadentes:
despregaram do alto do céu e mergulharam no fundo do mar.

Aquele mesmo brilho, temperando-se de profundezas.
Emergirá novamente aos meus olhos, quando e onde o oceano consentir.
O par de estrelas verdes fechado em concha:
dentro do teu ostracismo, cultivas-te pérola.

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30 Abril 2009

África

Primeiro, foi o chão a viajar. Uma fissura continental encheu-se de oceano. E a Pangeia rasgada nadou aos pedaços. Depois, as gentes é que flutuaram: os navios negreiros diminuíram a distância entre o litoral côncavo e a costa convexa. O que a geologia apartou a história reatou. Na marra.

E agora, eu. De um lado ao outro do Atlântico. De volta ao berço ancestral. Ao nascedouro da espécie voraz que sou. Sobre a terra onde ficamos de pé e arriscamos nossos primeiros passos, caminharei.

O errante adormecido despertou faminto. Esfrega os olhos inchados de hibernar. Espreguiça os membros em desuso de viagem. E lança os ouvidos para um destino longe: ouço o tambor que me pulsa.


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02 Março 2009

Espelho

Para Fernanda Papa


Fito
minha face e
fico

perplexo
ante o
reflexo

Acesso
meu mundo ao
avesso

Converso
com o meu
inverso:

quando descuido
da aparência
ouço a voz
da consciência


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28 Fevereiro 2009

A festa da carne (de soja)

Para Carol Misorelli


Pobre colombina,
como sofreu nesse carnaval...
se engraçou com um pierrot vegetariano
e acabou desnutrida de proteína animal.

Não teve sarapatel, lula a dorê,
nem muito menos qualquer vitela.
No cardápio balanceado para os dias de folia
o que não faltou mesmo foi o açaí na tigela.

Tamanha privação
quase vitimou um cão desavisado:
o vira-lata veio farejar o namoro orgânico
e por pouco não foi pego pra guisado.

Ela ainda sugeriu um pileque:
“pelo menos uma dose!”
Mas ele se manteve firme no leite.
De soja, claro. Sem lactose.

Finalmente, na quarta de cinzas
enfastiada de tanta pasta de gergelim
a colombina decidiu, resoluta:
“ano que vem, sairei com o arlequim”.


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16 Fevereiro 2009

Anjo

Pelas janelas do apartamento, numa esquina do Bom Retiro, meus olhos de criança viam o mundo lá embaixo: os carros que eu sonhava dirigir um dia. O vai e vem do comércio. Os vizinhos em outras janelas. E a faixa de pedestres que eu costumava atravessar para chegar à escola, do outro lado da rua.

O quarteirão todo era o colégio. Construção imponente, de muros altos à prova de moleque. As salas eram uma amplidão. E os corredores, intermináveis, decorados com enormes imagens de santos católicos. As freiras eram autoridades onipresentes, garantindo a disciplina. Foi ali que me apresentaram as letras. E uma fé para acreditar.

As lições continuavam em casa: antes de deitar eu rezava para o altar sobre a mesinha de cabeceira. Confessar, agradecer e pedir: era a liturgia que me ensinaram. E que eu praticava, sem novidades.

Até aquela noite. Uma noite que nunca amanheceu na minha memória...

Visitas para a minha mãe alteraram a rotina doméstica. Depois da prece, continuei inventando peraltices, correndo de um lado para o outro. Ia da sala, numa ponta do corredor, até o quarto dos brinquedos, no final da passarela onde tantas vezes desfilei minha infância. No meio do caminho, a porta aberta do meu quarto.

Num dos meus rompantes, olhei de relance para dentro do dormitório. E paralisei. Uma coceguinha gelada subiu pela minha coluna. Minha face descoloriu.

Engoli o susto. E não chorei.

Corri para a sala e fiquei em silêncio, atônito. Surdo para a animada conversa dos adultos. Tentava encaixar na minha inocência a aparição que há pouco se me revelara.

Achei alguma coragem no fundo dos meus seis anos e voltei ao corredor. Cheguei à porta do quarto. E, como antes, ali estava: na penumbra, desenhado pela luz vacilante de uma vela ainda fresca, um anjo tomou forma no meu cômodo de dormir.

As asas enormes saíam do chão e tocavam o teto. As mãos estavam postas em oração; como eu fazia, religiosamente, todos os dias.

Fugi para o quarto dos brinquedos. Mas a curiosidade insistia em me desamarrar do medo. E ficava me jogando de um lado para o outro; só para eu confirmar, mais uma vez, o inacreditável.

A vela apagou. O anjo voou. E eu deitei naquela noite sobre um segredo que guardei só para mim durante toda a infância. Com o tempo, achei uma explicação de adulto para o episódio. Mas fiz questão de não perder aquela conexão pueril com o celestial.

Hoje em dia, continuo vendo anjos. Agora eles me aparecem sem asas. Às vezes com rosto de menino. Às vezes sem rosto nenhum. Na presença desses mistérios, volto a sentir a emoção daquela noite: um calafrio de encantamento diante daquilo que eu desconheço.

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11 Fevereiro 2009

Desencanto

Duas diferenças se encontraram e decidiram resolver no grito quem era mais certeza. Cheia de si, uma delas atirou contra a outra um ponto de vista rígido. A opinião ferida revidou, apunhalando a oponente com uma língua afiada.

A deflagradora do debate ainda ergueu seu escudo à prova de contestações. Mas o golpe atingiu-lhe o cerne da questão.

Bateram tanta boca que desaprenderam a beijar. E de tanto se alfinetarem, terminaram as duas por sangrar em verborragia.

Já era tempo: toda seda foi rasgada. Agora não há mais panos quentes para encobrir o que deve ser dito.


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